Escolas focam em ações para um planeta sustentável

Há duas semanas, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) lançou um ultimato: a educação para o desenvolvimento sustentável deve fazer parte dos currículos escolares. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, resumiu: “Não há plano B porque não existe planeta B”. Na Bahia, escolas públicas e particulares já enfrentam a questão há algum tempo.

No Colégio Oficina, na Pituba, os estudantes decidiram que as ações de sustentabilidade tinham que vir junto com as atividades de cidadania. Rachel Motta de Oliveira Mutti, 15, é aluna do 1º ano do nível médio e integra o Grupo Ambiental e Cidadão do Colégio Oficina (Gacco).

“A proteção do meio ambiente e as ações de cidadania devem andar juntas. Por isso juntamos os dois projetos no mesmo grupo”, diz a estudante. A diretora da escola e coordenadora do Gacco, Márcia Kalid, diz que, entretanto, não deve haver uma disciplina específica para trabalhar os temas.

“Trabalhamos isto de forma transversal e interdisciplinar”. Kalid diz ainda que os estudantes desempenham as atividades não somente no ambiente escolar, mas saem para realizar visitas a projetos de sustentabilidade, como à Cooperativa de Recicláveis de Canabrava.

“Quando observamos esta realidade de perto, as ações tornam-se muito mais que uma matéria pode ensinar. A motivação para conservar o ambiente tem que vir de dentro”, disse Rachel Mutti.

No espaço escolar, os estudantes são incentivados a promover ações de reciclagem – como parte integrante das disciplinas de física, química e biologia. Eles realizam visitas à estação de tratamento da Embasa, na Boca do Rio. O conhecimento dos processos de tratamento servem para estimular o consumo racional deste bem.

Rede pública

Embora possua diretrizes para a educação ambiental desde 2006, somente há um ano a Secretaria Municipal da Educação (Smed) criou um grupo de trabalho para tratar do tema. A intenção foi tornar as ações deste tema uma constante.

“Como ocorre com uma horta, a educação ambiental deve ser sempre cuidada, sempre regada”, comparou a supervisora do grupo de trabalho de educação ambiental da Smed, Jaqueline Araújo de Barros, que é socióloga. “A nossa proposta é que Salvador seja um município educador sustentável”, destacou.

A secretaria possui quatro linhas de atuação – visitas guiadas a institutos públicos e privados que promovem educação ambiental, utilização de recursos audiovisuais em sala de aula, oficinas de grafitagem e a produção de hortas – e parcerias com empresas privadas, como Coelba, Tetra Pak, Akatu e Braskem.

O projeto de hortas é chamado “Sementes do amanhã”. “A ideia é que a escola seja um espaço de interação e de diálogo multidisciplinar sobre sustentabilidade. No trabalho com a horta, podem ser trabalhados conceitos de matemática, biologia e outras disciplinas”, aponta Jaqueline de Barros.

Nesse projeto com as hortas, a Secretaria da Cidade Sustentável fornece materiais e equipamentos, e o Instituto de Biologia da Ufba, o conhecimento necessário. “O importante é que o estudante se aproprie deste conhecimento e seja um protagonista no processo”, diz a supervisora.

Metas

Ter escolas sustentáveis é uma das metas da Secretaria da Educação do Estado (SEC). A pasta possui o Programa de Educação Ambiental do Sistema Educacional, concebido para orientar os professores. “O objetivo é ter uma educação ambiental crítica, transformadora e emancipatória”, disse o coordenador de educação ambiental da SEC, Fábio Barbosa.

A partir destas diretrizes, as escolas desenvolvem suas atividades. Dentro da Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida (Comvidas), além de adequação da política pedagógica, é prevista a adequação do espaço físico: escolas com captação da água de chuva e espaço para horta e compostagem, locais para coleta seletiva, dentre outros. “Estamos caminhando, mas há ainda muito o que fazer”, disse Fábio Barbosa.

Criar disciplina não é única solução

O professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e da Universidade Federal da Bahia (Ufba) César Leiro ressalta que não é necessário haver uma disciplina específica sobre educação ambiental e desenvolvimento sustentável para que estes temas sejam tratados em sala de aula.
Leiro, que é doutor em educação pela Ufba, destaca que, “diante do acelerado processo de destruição da natureza e da dificuldade dos governos de enfrentar a questão do ponto de vista educacional e social, são legítimas as preocupações das Nações Unidas”.
O professor ressalta que, a partir da escola, é possível buscar e construir alternativas para o papel do estado e da sociedade em busca de uma sociedade ambiental e socialmente sustentável.
O apelo da Unesco realizado no Japão marcou o fim da Década das Nações Unidas de Educação para o Desenvolvimento Sustentável, iniciado em 2005.
Mas, mesmo no Japão, país conhecido pelo desenvolvimento educacional e práticas sustentáveis, apenas 20% dos habitantes sabem dizer o que seria educação para o desenvolvimento sustentável.
A reversão de quadros como estes, observa o professor César Leiro, “não ocorrerá com a criação de uma disciplina, mas com a associação dos campos do trabalho, da educação, da saúde e do meio ambiente”. Segundo o professor, é fundamental o uso de conteúdos midiáticos em diferentes linguagens.

Níveis distintos

É fundamental ainda que o desenvolvimento sustentável seja tratado nas séries da educação básica, com valorização da infraestrutura escolar e formação constante do corpo docente.
Mas César Leiro destaca a atenção que deve haver também no ensino superior. “Nesse último, é necessário garantir a indissociabilidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão”, apontou o professor da Ufba e da Uneb.
Ele salienta que deve haver um acompanhamento pedagógico sobre a questão do desenvolvimento sustentável que possibilite ao estudante produzir e socializar conhecimento sobre o tema. “Isto contribui para que o estudante faça da educação algo que fique com ele”, ressalta.

Visão holística
O coordenador de educação ambiental da SEC, Fábio Barbosa, destaca que o estudante deve observar o ambiente como algo realmente próximo, não dissociado da realidade. “O estudante deve ser estimulado a ter uma visão holística”, explica.
O estímulo ao uso racional da água e da energia elétrica não deve ser visto somente como algo que reduzirá custos imediatos pelo consumo, mas que trará benefícios duradouros e a longo prazo. “A educação para a sustentabilidade não resolve tudo como um passe de mágica”, diz Barbosa.

Fonte: UOL
Postado por: Solixx | www.solixx.com.br

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